Exercício: Lembrar de uma música, se transportar para época em que ela surgiu, transferir para um personagem os mesmos
sentimentos de quando a ouviu e escrever uma história.
Setembro de 1976. O inverno findando, mas ainda
rigoroso. Num fusca verde musgo, ano 68, quatro amigos inseparáveis estavam
indo ao bailinho de fim de semana.
No volante, Ferreirinha, um baixinho de cabelos por
sobre as orelhas com uma pele bronzeada, o mais bonito dos quatro e o mais
galanteador. O carona ao seu lado, conhecido por Moreno, fala mansa, um cara
sempre tranquilo. Sentados no banco de trás, Zoiudo e Marinho. Zoiudo por causa
dos olhos grandes e sempre alertas na captura da presa da noite. De todos era o
que tinha menos atrativos, entretanto o mais pegador. Por último, Marinho, um
jovem sonhador de olhos claros e cabelos compridos, romântico e o poeta da
turma, apesar de estar passando por um momento de revolta.
Essas saídas de final de semana dos amigos eram
muito interessantes porque somente o Ferreirinha tinha carro. Se ele arrumava
uma namoradinha e um dos outros três também, esse tinha carona garantida e os outros dois se viravam com o buzão. Mas
se fosse o contrário, que era muito difícil, e o Ferreirinha ficasse de mãos
abanando, os solteiros voltavam com ele e os pares ou par se limitavam ao FNM.
Isso tudo era preestabelecido para não causar constrangimentos. Entendiam-se
muito bem, pois no tempo que a amizade esteve mais próxima, nunca brigaram.
Pois bem, naquela noite decidiram que se um deles
conhecesse alguém marcaria um encontro para outra semana, porque após o baile,
na madrugada adentro haveria a reunião da FAB², um grupo que ganhou força no
fim da década de 60.
Durante o trajeto eles ouviam no toca-fitas do
carro uma coletânea de sucessos recentes de vários autores e uma música chamou
a atenção dos amigos.
__ Essa é explícita. __ Observou Moreno. __ Fala
claramente sobre a Ditadura.
__ Que Ditadura o quê? __ retrucou Marinho, dando
um tapinha na cabeça do amigo. __ Pega aqui que tu vai ver a dita dura, seu
mané. __ E deu uma sonora gargalhada.
Os outros dois também riram, mas Zoiudo questionou:
__ E não é sobre a Ditadura?
__ Eu não estou falando da música, apesar de que ela me transmite sensações diferentes
às de vocês. __ Marinho responde num tom melancólico. __ Eu falo da palavra que
vocês empregam. Para mim e para muitos o que aconteceu no País foi uma intervenção
militar que dura por doze anos.
__ Eu estou dentro desses muitos. __ Observou
Ferreirinha, sempre de olho na estrada. __ Tinha que ser dado um fim nos
terroristas comunistas que queriam tomar o País.
__ Mas o que você me diz de tantos inocentes que
morreram por aí a fora? __ Perguntou Moreno, olhando de soslaio para trás.
__ Bicho, inocente morre todo dia. __ Falou Marinho
num tom aborrecido. __Pergunta para teu cunhado que é zagueiro e joga, como eu,
o futebolzinho na várzea se, depois do jogo ele ficar de bate papo com os
bandidinhos que jogam no mesmo time, não corre o risco de ir pro buraco...
Ferreirinha para o carro bruscamente.
__ Zoiudo, troca de lugar comigo rapidinho. Minha
carteira está vencida.
__ Putz! Uma batida policial. __ Exclamou Moreno.
__ Minha carteira está vencida. __ Gritou
Ferreirinha.
O carro parou a uns cinquenta metros da batida e os
quatro saíram observando um dos pneus simulando que havia furado. Nesse
rebuliço houve a troca de motorista e seguiram até serem barrados pelos
policiais. O interrogatório e a vistoria no veículo foram rápidos até que o
policial que os interrogava dar a ordem para seguirem em frente.
Antes do término do baile, os amigos decidiram sair
porque se aproximava o horário do encontro da FAB². Zoiudo como quase sempre se
enroscou com uma mina qualquer, mas a prioridade naquele momento era a
ideologia existente em suas mentes.
Avançava a madrugada pela a noite adentro quando os
quatro amigos voltavam para suas casas. No toca fitas rolava a mesma fita e por
coincidência tocava a música polêmica.
__ Essa música tem tudo a ver com o que foi falado
hoje na reunião. __ Disse Moreno.
__ Cara, já vem com esse papo da música novamente?
__ Perguntou Marinho fazendo cara de mau. Ele sempre fazia essa cara quando
discordava de algo.
__ Então, diz aí o mané! Por que essa canção lhe
toca tanto? __ Perguntou Zoiudo num tom de deboche.
__ Sem tirar sarro, zoinho de cururu. __ Retrucou
Marinho. Dando um tapa na cabeça do motorista.
Depois da batida houve uma troca de motorista
permanente. Ferreirinha estava renovando a carteira naquela semana.
__ Tudo bem, meus parças. Vocês venceram. Sabe
aquela mina que eu estava com uma transa legal até o mês passado? Pô! Ela ficou
sabendo das nossas ideias e me largou. Ela é a favor dos que queriam tomar o
País.
__ E tu já estava gostando da mina? __ Perguntou
Ferreirinha galanteador.
__ Até que tava curtindo a mina, mas levei um
pontapé na bunda por causa de ideologia. E quando ouvi a música pela primeira
vez percebi que tem a ver com tudo que ultimamente está acontecendo comigo.
Como assim, Marinho? __ Questionou Moreno.
__ Fiquei revoltado com a atitude dela e ao mesmo
tempo culpado pelas minhas atitudes. Ainda bem que a culpa já passou e continuo
com o mesmo objetivo. Pensei muito em ir embora, dar um sumiço, mas a falta de
dinheiro por estar desempregado e amizade que tenho com vocês pesou muito na
balança. Além disso, o desapego pela família em geral e o distanciamento de
Deus, faz tempo que não oro, me fez refletir ao ouvir essa música.
__ É verdade! Lembra muito a letra da música. __
Observou Zoiudo. __ Mas a gente não sabia de nada disso...
__ Não fica assim não, bicho. __ Falou Ferreirinha.
__ Tudo vai melhorar na sua vida. E estaremos sempre juntos.
Marinho foi o último a descer do carro de Ferreirinha,
pois morava na mesma rua que o amigo. O tom escuro da madrugada transformava-se
na claridade do amanhecer quando entrou em sua casa. Tomou um banho e, mesmo
com o corpo cansado, o cérebro ainda transgredia o cansaço mental.
Sentou-se à frente da companheira que estava sobre
a escrivaninha de seu quarto e escreveu:
Meu "eu" presente
Meu chiclete de bola na boca,
minha roupa amassada e rôta
porque não quero trocar.
Meu bolso sempre sem dinheiro,
minha madrugada não tem paradeiro
porque não posso parar.
Meu cabelo ao vento espalhado,
meu rosto cansado e marcado
porque não quero dormir.
Meu desejo de sumir deste lugar,
meu trio que me força a ficar
porque não posso partir.
Meu ideal de ainda ser gente,
minha tristeza me torna contente
porque não quero chorar.
Minha vida que é problemática,
minha noite solitária e apática
porque não posso falar.
Meu baile de fim de semana,
minha mãe que todo dia reclama
porque não quero ouvir.
Minha poesia para novos e antigos,
minha turma me chama de amigo
porque não posso ferir.
Meu mundo, meu corpo, minha mente,
minha criança está em mim presente
porque não quero calar.
Meu início, meu meio, meu fim,
nunca vou deixar de ser assim
porque não posso mudar.
09/09/1976
Meu "eu" presente
Meu chiclete de bola na boca,
minha roupa amassada e rôta
porque não quero trocar.
Meu bolso sempre sem dinheiro,
minha madrugada não tem paradeiro
porque não posso parar.
Meu cabelo ao vento espalhado,
meu rosto cansado e marcado
porque não quero dormir.
Meu desejo de sumir deste lugar,
meu trio que me força a ficar
porque não posso partir.
Meu ideal de ainda ser gente,
minha tristeza me torna contente
porque não quero chorar.
Minha vida que é problemática,
minha noite solitária e apática
porque não posso falar.
Meu baile de fim de semana,
minha mãe que todo dia reclama
porque não quero ouvir.
Minha poesia para novos e antigos,
minha turma me chama de amigo
porque não posso ferir.
Meu mundo, meu corpo, minha mente,
minha criança está em mim presente
porque não quero calar.
Meu início, meu meio, meu fim,
nunca vou deixar de ser assim
porque não posso mudar.
09/09/1976
Esta poesia
foi o divisor de águas em sua vida.
1. No meu mundo e
nada mais – Música do álbum “Guilherme Arantes” lançada no ano de 1976 em pleno
Regime Militar.
2. FAB – Facção
Anticomunista Brasileira – Grupos de jovens que lutavam contra o Comunismo.
23/03/2015

Super legal o texto Luiz! Me considero o próprio Moreno.Não sou a favor de nenhum tipo de "ISMO", por isso luto contra todo o tipo de fanatismo. Belo texto para se pensar. Abraço.
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