quarta-feira, 8 de abril de 2015

Exercício: Lembrar de uma música, se  transportar para época em que ela surgiu, transferir para um personagem os mesmos sentimentos de quando a ouviu e escrever uma história.

Meu mundo e nada mais¹



Setembro de 1976. O inverno findando, mas ainda rigoroso. Num fusca verde musgo, ano 68, quatro amigos inseparáveis estavam indo ao bailinho de fim de semana.
No volante, Ferreirinha, um baixinho de cabelos por sobre as orelhas com uma pele bronzeada, o mais bonito dos quatro e o mais galanteador. O carona ao seu lado, conhecido por Moreno, fala mansa, um cara sempre tranquilo. Sentados no banco de trás, Zoiudo e Marinho. Zoiudo por causa dos olhos grandes e sempre alertas na captura da presa da noite. De todos era o que tinha menos atrativos, entretanto o mais pegador. Por último, Marinho, um jovem sonhador de olhos claros e cabelos compridos, romântico e o poeta da turma, apesar de estar passando por um momento de revolta.
Essas saídas de final de semana dos amigos eram muito interessantes porque somente o Ferreirinha tinha carro. Se ele arrumava uma namoradinha e um dos outros três também, esse tinha carona garantida  e os outros dois se viravam com o buzão. Mas se fosse o contrário, que era muito difícil, e o Ferreirinha ficasse de mãos abanando, os solteiros voltavam com ele e os pares ou par se limitavam ao FNM. Isso tudo era preestabelecido para não causar constrangimentos. Entendiam-se muito bem, pois no tempo que a amizade esteve mais próxima, nunca brigaram.
Pois bem, naquela noite decidiram que se um deles conhecesse alguém marcaria um encontro para outra semana, porque após o baile, na madrugada adentro haveria a reunião da FAB², um grupo que ganhou força no fim da década de 60.
Durante o trajeto eles ouviam no toca-fitas do carro uma coletânea de sucessos recentes de vários autores e uma música chamou a atenção dos amigos.
__ Essa é explícita. __ Observou Moreno. __ Fala claramente sobre a Ditadura.
__ Que Ditadura o quê? __ retrucou Marinho, dando um tapinha na cabeça do amigo. __ Pega aqui que tu vai ver a dita dura, seu mané. __ E deu uma sonora gargalhada.
Os outros dois também riram, mas Zoiudo  questionou:
__ E não é sobre a Ditadura?
__ Eu não estou falando da música, apesar  de que ela me transmite sensações diferentes às de vocês. __ Marinho responde num tom melancólico. __ Eu falo da palavra que vocês empregam. Para mim  e para muitos  o que aconteceu no País foi uma intervenção militar que dura por doze anos.
__ Eu estou dentro desses muitos. __ Observou Ferreirinha, sempre de olho na estrada. __ Tinha que ser dado um fim nos terroristas comunistas que queriam tomar o País. 
__ Mas o que você me diz de tantos inocentes que morreram por aí a fora? __ Perguntou Moreno, olhando de soslaio para trás.
__ Bicho, inocente morre todo dia. __ Falou Marinho num tom aborrecido. __Pergunta para teu cunhado que é zagueiro e joga, como eu, o futebolzinho na várzea se, depois do jogo ele ficar de bate papo com os bandidinhos que jogam no mesmo time, não corre o risco de ir pro buraco...
Ferreirinha para o carro bruscamente.
__ Zoiudo, troca de lugar comigo rapidinho. Minha carteira está vencida.
__ Putz! Uma batida policial. __ Exclamou Moreno.
__ Minha carteira está vencida. __ Gritou Ferreirinha.
O carro parou a uns cinquenta metros da batida e os quatro saíram observando um dos pneus simulando que havia furado. Nesse rebuliço houve a troca de motorista e seguiram até serem barrados pelos policiais. O interrogatório e a vistoria no veículo foram rápidos até que o policial que os interrogava dar a ordem para seguirem em frente.
Antes do término do baile, os amigos decidiram sair porque se aproximava o horário do encontro da FAB². Zoiudo como quase sempre se enroscou com uma mina qualquer, mas a prioridade naquele momento era a ideologia existente em suas mentes.
Avançava a madrugada pela a noite adentro quando os quatro amigos voltavam para suas casas. No toca fitas rolava a mesma fita e por coincidência tocava a música polêmica.
__ Essa música tem tudo a ver com o que foi falado hoje na reunião. __ Disse Moreno.
__ Cara, já vem com esse papo da música novamente? __ Perguntou Marinho fazendo cara de mau. Ele sempre fazia essa cara quando discordava de algo.
__ Então, diz aí o mané! Por que essa canção lhe toca tanto? __ Perguntou Zoiudo num tom de deboche.
__ Sem tirar sarro, zoinho de cururu. __ Retrucou Marinho. Dando um tapa na cabeça do motorista.
Depois da batida houve uma troca de motorista permanente. Ferreirinha estava renovando a carteira naquela semana.
__ Tudo bem, meus parças. Vocês venceram. Sabe aquela mina que eu estava com uma transa legal até o mês passado? Pô! Ela ficou sabendo das nossas ideias e me largou. Ela é a favor dos que queriam tomar o País.
__ E tu já estava gostando da mina? __ Perguntou Ferreirinha galanteador.
__ Até que tava curtindo a mina, mas levei um pontapé na bunda por causa de ideologia. E quando ouvi a música pela primeira vez percebi que tem a ver com tudo que ultimamente está acontecendo comigo.
Como assim, Marinho? __ Questionou Moreno.
__ Fiquei revoltado com a atitude dela e ao mesmo tempo culpado pelas minhas atitudes. Ainda bem que a culpa já passou e continuo com o mesmo objetivo. Pensei muito em ir embora, dar um sumiço, mas a falta de dinheiro por estar desempregado e amizade que tenho com vocês pesou muito na balança. Além disso, o desapego pela família em geral e o distanciamento de Deus, faz tempo que não oro, me fez refletir ao ouvir essa música.
__ É verdade! Lembra muito a letra da música. __ Observou Zoiudo. __ Mas a gente não sabia de nada disso...
__ Não fica assim não, bicho. __ Falou Ferreirinha. __ Tudo vai melhorar na sua vida. E estaremos sempre juntos.
Marinho foi o último a descer do carro de Ferreirinha, pois morava na mesma rua que o amigo. O tom escuro da madrugada transformava-se na claridade do amanhecer quando entrou em sua casa. Tomou um banho e, mesmo com o corpo cansado, o cérebro ainda transgredia o cansaço mental.
Sentou-se à frente da companheira que estava sobre a escrivaninha de seu quarto e escreveu:

          Meu "eu" presente

          Meu chiclete de bola na boca,
          minha roupa amassada e rôta
          porque não quero trocar.

          Meu bolso sempre sem dinheiro,
          minha madrugada não tem paradeiro
          porque não posso parar.

          Meu cabelo ao vento espalhado,
          meu rosto cansado e marcado
          porque não quero dormir.

          Meu desejo de sumir deste lugar,
          meu trio que me força a ficar
          porque não posso partir.

          Meu ideal de ainda ser gente,
          minha tristeza me torna contente
          porque não quero chorar.

          Minha vida que é problemática,
          minha noite solitária e apática
          porque não posso falar.

          Meu baile de fim de semana,
          minha mãe que todo dia reclama
          porque não quero ouvir.

          Minha poesia para novos e antigos,
          minha turma me chama de amigo
          porque não posso ferir.

          Meu mundo, meu corpo, minha mente,
          minha criança está em mim presente
          porque não quero calar.

          Meu início, meu meio, meu fim,
          nunca vou deixar de ser assim
          porque não posso mudar.


                  09/09/1976    


Esta poesia foi o divisor de águas em sua vida.

1. No meu mundo e nada mais – Música do álbum “Guilherme Arantes” lançada no ano de 1976 em     pleno Regime Militar. 
2. FAB – Facção Anticomunista Brasileira – Grupos de jovens que lutavam contra o Comunismo.



                                                                                                23/03/2015

Um comentário:

  1. Super legal o texto Luiz! Me considero o próprio Moreno.Não sou a favor de nenhum tipo de "ISMO", por isso luto contra todo o tipo de fanatismo. Belo texto para se pensar. Abraço.

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