segunda-feira, 29 de junho de 2015





Exercício: Ler o texto de Juliano Garcia Pessanha,
                captar ideias e transformar num conto.

Entre dois buracos

                        Neste fim de semana que passou, fui convidado para participar de três eventos culturais. Dois aconteceram no sábado, um de literatura e o outro de dança. O terceiro, no domingo, apresentação de novas bandas de rock.
Nos dois que aconteceram no sábado, minha netinha Bebella me fez companhia, ela é uma figura muito presente em minha vida. No domingo fui com minha esposa, pois seu filho, um bom baterista, se apresentaria com os amigos. Poderia ter sido tudo perfeito se, num dos eventos, não houvesse ocorrido algo surreal que vos relato abaixo.
Minha netinha havia levado alguns livros para serem doados e trocados. Estávamos escolhendo livros na banca infantil que ficava ao lado da banca de livros adultos. Entre as duas barracas culturais tinha um espaço vazio que como por encanto foi ocupado por um ser iluminado.
O fascínio dominou a minha mente e meu comportamental transformou-se em grande curiosidade. Percebi que Bebella estava entretida entre princesas e fadas e fui de encontro àquele ser.
Ele parecia um tanto frágil, mas seus singelos olhos por detrás dos óculos quadrados transmitiam sagacidade e força. Os cabelos esbranquiçados pareciam centelhas a brilhar sobre o céu de Shangri-lá. A suavidade da sua voz era como um cântico melodioso numa opereta progressista.
Eu direcionei meus passos até aquele ser de luz e me fiz apresenta-lo. E me senti orgulhoso por esse ato e uma felicidade imensurável por estar diante de um ser de enorme simplicidade, mas de grandeza singular.
Num momento ímpar como esse, nós mortais, devemos mais ouvir do que falar, mas eu tinha a necessidade de lhe dizer o quanto passei a admirá-lo ao conhecer um pouquinho da sua história. Infelizmente não houve tempo para travarmos um diálogo.
Quase que da mesma forma que o ser iluminado surgiu, do nada, apareceu um alienígena das profundezas do cosmos do inferno e, sem ter ao menos uma partícula da porcentagem maior de uma educação que nos foi ensinada pelo Universo, abduziu, abruptamente, o belo ser de luz, interrompendo naquele instante o meu crescer intelectual.
Deixo aqui um alerta. Provavelmente, muitos desses seres desprezíveis povoam a nossa esfera nas diversas formas físicas e posições sociais. A maioria por ter uma espiritualidade muito primitiva, ainda estão radicados nos 3E que os fazem mais perigosos do que os demais.
O alienígena de sábado não tinha uma fisionomia grotesca, mas a sua postura e comportamento tinha tudo a ver com um ser do mal. Ele se apresentou com uma estatura média-alta, longilíneo e de cabeça branca.
Tudo bem! Acredito que não era para ser dessa vez, mas os Celestiais vão me reservar outro momento com aquele ser iluminado e o tal alienígena... O das profundezas do cosmos do inferno, esse sim, antes de terminar a abdução, direcionou seu olhar maligno e patético para a minha pessoa. Eu, sem pestanejar, lhe enviei uma mensagem telepática juntamente com movimentos labiais: “Vai tomar bem no meio do furinho do olhinho do seu... Puffff! Abduziu”.
Naquele dia voltei para o meu lar muito aborrecido e triste. Como pode existir no Universo um ser tão ardiloso? Acho que no fundo ele engana a si mesmo desde que nasceu. Será que ele nasceu de chocadeira? Sei lá... eu sei que estava muito indignado com o ocorrido e até cheguei a dizer para o meu amor que, talvez, não participaria mais das aulas do curso que estava fazendo.
Indignada ficou ela com meu posicionamento e me fez entender que não é qualquer alienígena das profundezas do cosmos do inferno que fará com que eu desista. Além disso, por ser um 3E, ele é ignorante e de criaturas assim devemos ter pena e orarmos para que seu desenvolvimento acelere.
Também me disse que sou mais inteligente e esperto do que qualquer ser dessa estirpe e que um brasileiro, digno e verdadeiro como eu, não desiste nunca. E aqui estou eu.

                                                                         15/06/2015





  


Exercício: Estudar um mito e escrever um texto na atualidade.

O Mito
O milagre da criação
  
__ Boa tarde, pessoas do bem! Tem mais um início o seu programa de variedades “Quem sabe faz agora, não espera anoitecer”. Como vocês sabem, esse é um programa que pode fazer uma pessoa sair do anonimato para o hall da fama. O entrevistado de hoje é um torneiro mecânico, mas podem ficar sossegados porque ele tem todos os dedos da mão e nunca roubou ninguém. Senhoras e senhores, com vocês, Jael, o homem das mil invenções...
Muito aplausos na plateia.
__ Gente, não se assustem com o nome. Garanto para vocês que ele não é o pai do super-homem. Além disso, o nome é muito mais comprido. Sr. Jael pode nos dizer seu nome todo?
__ Jael Ebenezér Sóstenes Uzias da Silva a seu dispor.
__ Seu Jael, o senhor pode nos dizer qual o significado do seu nome?
__ Minha mãe dizia que era tudo nome de santo tirado da bíblia. Ela lia muito o livro sagrado. Só o Silva que é do meu pai. Mas lá no Belenzinho todo mundo me conhece pelas iniciais.
__ E pelo jeito nesse bairro famoso, famoso lá é o senhor...
__ Mais ou menos... lá eu sou amigo de todo mundo.
__ E quando o Sr. não está trabalhando, o que fica fazendo?
__ Fico lá no meu reino...
__ No seu reino?
__ Sim, lá na minha oficina reinando, inventando coisas.
__ Bom... acho que já podemos mostrar aos nossos telespectadores e ao público toda a sua criatividade. O que temos aí, Sr. Jael?
__ Isso aqui é uma bala de chupar antigripal.
__ E em que consiste essa bala?
__ Oras, curar a gripe. E cura qualquer gripe.
__ O Sr. está de brincadeira?
__ Não estou não, meu filho. Como dizia um técnico de futebol que precisa chupar uma das minhas balas “Aqui é trabalho”.
__ É verdade que cura até a gripe do pato louco?
__ Verdade verdadeira. Lá em Belenzinho houve um caso e o moço tá vivo até hoje.
__ E quanto tempo leva para fazer efeito?
__ Menos de duas horas.
__ Opa! Podemos fazer um teste aqui mesmo no programa. Alguém se habilita? Ali em cima, aquela mocinha. Qual o seu nome?
__ Agripina.
__ Nome bem sugestivo para a ocasião. Topa fazer o teste?
__ Topo.
__ Muito bem! Se até o fim do programa você não morrer e essa coriza ir embora, vai receber uma caixa de balas antigripal do Sr. Jael e mais um belo prêmio oferecido pela produção. Ainda sobre a bala, de que ela é composta?
__ Pó da casca de mexerica...
__ E por que não de ponkan?
__ Ora, a mexerica é muito mais rica em vitamina C e além disso a ponkan deixa um certo amargor na bala.
__ E os outros componentes?
__ Açúcar mascavo, raiz de um certo tubérculo e mais um ingrediente guardado a sete chaves.
__ Muito esperto o Sr. Jael. Ele conta o milagre, mas não fala quem é o santo. Bem, qual a próxima criação?

__ Agora vamos para a sétima e última invenção... O que temos aí? O quê? Um homem andando por sobre as águas? Tem vídeo? Essa eu quero ver... Como isso é possível Sr. Jael?
__ Na realidade, vendo o Medina surfando me ocorreu essa ideia de produzir um par de calçados que nos desse a oportunidade de caminhar e até correr por sobre a água.
__ Quem diria? O nosso grande campeão mundial Medina servindo de muso inspirador para esse gênio aqui presente... Antes de passarmos o vídeo, tem como explicar essa nova surpresa?
__ Tem sim. O meu filho também é surfista e junto com um amigo possuem uma fabriqueta de pranchas. Eu desenhei um par de mine-pranchas com quilhas maiores que o normal e muito semelhantes a chinelões. Na parte superior, sapatilha feita de silicone moldada aos pés de quem irá usar.   
__ Até aí, tudo bem, mas como se consegue caminhar na água com esses chinelões?
__ Bem simples! No centro da parte inferior foi posto uma chumbada com peso superior ao calçado para se manter um equilíbrio e no fundo de cada quilha foram adicionados sensores que interagem com as moléculas de oxigênio submersas. Os sensores emitem fortes ondas contínuas de energia causando a falsa flutuação.
__ Sensacional! Além de lazer, esses chinelões teriam uma utilidade mais funcional?
__ Com certeza! Os salva-vidas chegariam com mais rapidez nas vítimas em afogamentos do que se fossem nadando...
__ Espera aí... E os drones, como ficariam?
__ Um drone pode ter uma pane, vir com defeito de fábrica. Os sapatos flutuantes só serão inúteis se não servirem nos pés que irão usá-los.
__ Parabéns, Sr. Jael. Vamos ver o vídeo... ei, esse vídeo, não. Esse é o lagarto Basilisco que anda sobre as águas. Coloca o outro.
__ Olha, moço, esse vídeo já me fez ter outra ideia.
__ Esse é o Sr. Jael, o homem de grandes ideias. E não é que o homem anda e corre sobre as águas. Bem, pessoas do bem, esse foi mais um progra... O Sr. Jael quer dizer algo mais.
__ Eu quero dizer que o pessoal lá do Belenzinho diz que eu faço milagre, mas não faço não. Todos nós somos capazes porque todos somos irmãos e filhos do mesmo pai que é Deus.
__ Antes de encerrarmos, o Sr. Falou no início da entrevista que lá no seu bairro é conhecido pelas iniciais do seu nome. Pode repetir, por favor, vagarosamente.
__ Pois não, Jael Ebenezér Sóstenes Uzias da Silva a seu dispor.
__ Entendi. Este foi Jael, o futuro inventor mais famoso de nossa era. Aplausos para JESUS!

                                                                           10/06/2015  







Exercício: Escrever um texto com tema livre com as formas de se comunicar do séc.  
                 18 ou 19 que se passa no séc. 21 usando imagens e ideias.

A felicidade é eterna

O distinto cavalheiro tinha um olhar melancólico como o entardecer desbotado de um dia chuvoso de outono. Suas faces eram de uma brancura láctea dos habitantes de países frios, mas sempre que encontrava aquela que o acaso lhe havia reservado, as maçãs do seu rosto ficavam róseas feito um por de sol descortinado.
Sentado no banco de uma praça verdejante, o jovem mancebo, ansioso, insistentemente dirigia o seu olhar para o celular tão impassível aos seus anseios. Mensagens que iam ficavam ao vento daquela manhã dourada e fervilhante.    
A praça onde aconteciam os encontros vertiginosos era repleta por arvoredos de um verde irrequieto e suspirante pelas brumas matinais. Em seu seio havia um enorme lago de águas turvas e sonolentas, cercado por um guarda corpo de madeira. Belas bromélias por toda a sua extensão davam proteção ao bando de patos, gansos, marrecos e um magnífico casal de cisnes que iam e vinham no remanso a beliscar migalhas arremessadas por pequeninos imbuídos nessa aventura. Próximo ao banco, dezenas de pombos, alvoroçados e famintos, comiam tudo que fosse comestível e aparecesse pela frente.  
Do lado direito da praça fica a prefeitura onde o ambicioso rapaz trabalha como escriturário, função que lhe fornece a remuneração suficiente para pagar o derradeiro ciclo da Faculdade de Economia. Ele sonha em sentar-se à mesa mais cobiçada do prédio e quiçá um dia chegar a voos mais altos.
A igreja matriz, de esplendorosa beleza barroca, fica ao lado contrário. Com suas três torres frontais todas decoradas em bronze. A sua torre central mostra o magnífico sino feito em cobre com inscrições e desenhos conditos. Foi ali, em frente ao retábulo todo em mármore detalhado em ouro mostrando a imagem de Jesus crucificado, que o moço com o peito rubro de paixão a palpitar prometeu há dois anos para a sua amada desposá-la nesse mesmo santuário. 
O sol se pôs em zênite e teve início a doze badaladas no enorme cantante da matriz. Infinitos sessenta minutos se passaram e nada de aparecer a donzela apaixonada. Agora o moço tinha o olhar fixo no enorme prédio de escritórios à sua frente. Vinte andares de ferros e cimentos espelhados onde o sol faísca nas janelas e escalda as pedras das sacadas.
É num desses escritórios, na Empresa de Advogados S.A., que estagiava a encantadora e doce dulcinéia. Dona de um corpo venusiano, delicado, de membros longilíneos e de uma brancura tenra. Os cabelos lisos e trigueiros por sobre os ombros realçava as faces rosadas de um rosto arredondado. O pequeno nariz harmonizando-se com a boca escarlate e os olhos cândidos completa esse ser angelical.
Ao sair da sala, ela transportou o seu olhar para a caixa de mensagens do celular que havia ficado no silencioso durante as duas horas de reunião. Mensagens que ficaram ao vento naquela manhã celeste. Mensagens do seu amado mostrando que, mesmo atrasada, lhe davam a certeza da espera obstinada no banco da praça. Uma das mensagens que ela mais gostava de ler “A felicidade é eterna” estava lá. Ela saiu do elevador e em quase júbilo correu na direção da praça.
O moço enviou mais uma mensagem e decidiu ir até a cafeteria que fica embaixo do prédio de escritórios tomar uma chávena de macchiato. O trânsito por aquelas horas se tornava muito intenso, carros e motos pareciam gazelas em fugas das garras da família de leões.
Ao abrir o sinaleiro, uma brecada brusca por um instante insipiente e o corpo é jogado por sobre a negritude do asfalto abrasador. O jovem mancebo com a amada em seus braços ao cofiar o cabelo trigueiro ele sente uma quentura molhada nas mãos. O cabelo se transforma num avermelhado de um bronze baço e a languidez dos olhos se perde na escuridão de um silêncio recolhido. Antes do suspiro derradeiro, a donzela balbucia as últimas palavras para seu amado que permanece ao seu lado até o carro mortalha a transferir para o IML.
Havia passado duas semanas depois do trágico. Ajoelhado por sobre a relva macia do cemitério, o jovem orava. Na campa, inscrito em letras chorosas as últimas palavras que sua amada balbuciou: “A felicidade é eterna”.


       10/06/2015


Exercício: Escrever um texto com palavras corriqueiras e outro
                texto de mesmo sentido com palavras não comuns.

A diferença entre amar e se apaixonar

“Quando se ama, é um cuidar e deixar ser cuidado, mas quando se está apaixonado é como viver os momentos sem saber viver a razão.”

“Quando se tem uma afeição profunda há um zelo mútuo entre os dois seres, mas quando se está dominado pela paixão se perde a faculdade de pensar.”    


10/06/2015



Exercício: Escrever um texto que inclua os sentidos das palavras abaixo relacionados 
com SENSAÇÃO – “Amizade + Sonho
pedra – apartamento – cavalo – borboleta – palhaço
água-viva – jogador de futebol – sorvete


E correu para o abraço.


 Horário sagrado, seis da matina. Acorda, olha para o lado, ela ainda está ali. Parece um sonho que já dura por dois anos.
 Levanta-se, caminha até a toalete da enorme suíte para a higiene matinal. Logo em seguida entra no closet, veste uma camisa do clube, uma bermuda discreta e calça um tênis qualquer das quase três dezenas da coleção.
Ao abrir a porta do quarto, seu grande amigo o espera com uma bela lambida. O dog alemão todo malhado estava mais para um equino dos índios de faroeste americano do que para cachorro. Abraçou o animal com muito carinho e se dirigiu à cozinha onde o café da manhã havia sido preparado pela empregada que o acompanha há oito anos, época da sua profissionalização.
Logicamente que após o café não poderia faltar sorvete com banana caramelizada, mania que se iniciou quando começou a entrar dinheiro suficiente para se fazer uma extravagância dessa. Ele se lambuzava todo com essa guloseima e dividia esse momento de prazer com o amigo.
Após ver uma parte do noticiário esportivo das seis e meia, se despede da empregada, mas antes pede para ela passar uma pomada cicatrizante na pequena queimadura nas costas da mão esquerda. Resultado, provocado por um pequeno ser no mergulho da última folga, que o deixou um tanto irritado. Depois a raiva passou, pois havia colocado a mão num habitat que não era o seu.
Retornou ao quarto e ficou observando por algum tempo a sua razão de tudo aquilo. Beijou-lhe apaixonadamente e imaginou que ela estaria sonhando com um vestido novo para ir ao próximo evento de premiação dos melhores do campeonato.
Antes de sair deu um longo abraço no amigo e prometeu que ao retornar fariam um belo passeio pelo condomínio. Desceu até a garagem e sentou-se à frente do volante de mais um carro adquirido naquele ano. Deu a partida e atravessou os limites selva adentro.
Trânsito caótico, parado, tempo para relaxar, passar os dedos por sobre o celular, até observar à sua volta e perceber que do outro lado da marginal um grande comboio rodava lentamente e numa das carretas letras garrafais “Gran Circus Los Três Hermanos” o fez lembrar um tempo de criança onde ele e outros garotos burlavam a “magnifica” vigilância do circo, passando por debaixo da lona para ver a sua maior atração que os fazia rir por todo o espetáculo.
Os carros voltam a trafegar num fluxo próximo ao normal e, enfim, ele chega ao objetivo. Em frente ao Centro de Treinamento, próximo à entrada do estacionamento, existem dois pés de manacás, um roxo e um amarelo. Nessa época do ano eles já estão com seus casulos se abrindo. De dentro do carro ele observa um casulo semiaberto e antes de entrar no CT, desce do veículo em tempo de ver o delicado inseto sair lá de dentro. Ele assiste uma vida surgir à sua frente, as pequeninas asas com frágeis movimentos e logo depois o maravilhoso e tranquilo voo por sobre as folhagens.
Voltou para o carro e dirigiu-se ao estacionamento. Horário sagrado, treinamento puxado, pois no final de semana será a final do campeonato, o principal jogo do ano.     
   

08/06/2015


Exercício: Escolher uma cena do filme “Luzes da Cidade” e escrever sobre ela.


Olhos de Espírito

Quando o mendigo a deixou em casa e ao se despedir beijou sua mão, os seus olhos de espírito a fez enxergar que, mesmo sendo cega e não sabendo da posição social do mesmo, o amor estava ali e ela, pela primeira vez sentia-se amada. Algum tempo depois, já recuperada da visão e com a situação financeira estabilizada, ao pegar na mão do mendigo para lhe entregar uma rosa e uma moeda sem saber quem ele era, seus olhos de espírito a fez enxergar que o amor estava ali e que era o seu verdadeiro e único amor.

                                                                                                          06/05/2015


Exercício: Narrar algo que aconteceu em algum lugar da escola que estudou no ponto de vista de alguém da escola.


Um simples roubo

Durante trinta anos eu fui servente daquela escola. Presenciei muitos momentos alegres e também momentos tristes. Assisti tantas e tantas crianças e tantos e tantos adolescentes se formarem. Todos os meus filhos estudaram até o último ano do ensino médio. Eu morava na mesma rua da escola com meu marido e meus seis filhos.
Aquela escola continua lá até hoje. Ela é enorme com dezesseis classes e cada uma com capacidade para trinta e cinco alunos. Eu lembro que naquela época, no seu pátio externo havia uma quadra poliesportiva e um campo de futebol de dimensões menores que o padrão.
Os alunos que lá estudavam nos três períodos tinham total liberdade de praticarem esporte durante o dia, lógico que com a apresentação da carteirinha do colégio. Luan, o meu irmão caçula, estudou nessa escola até o segundo ano do ensino médio e ele, por ser meu irmão, tinha mais liberdade que os demais alunos.
Naquele tempo, as crianças e os adolescentes nem sonhavam que um dia existiria o videogame (ainda bem) e as diversões eram jogar bola no meio da rua, empinar papagaio, jogar pião e os mais velhos também jogavam o tal de pebolim, o futebol virtual de agora.
Sempre tinha uma mesa de pebolim em algum boteco, mas ao seu lado também havia uma mesa de bilhar. O interessante que era proibido por lei menor jogar bilhar, mas o pebolim que a mesa ficava ao lado era permitido. Os adolescentes menores de idade sempre davam um jeitinho para jogar umas partidinhas de bilhar.
O meu irmão Luan não era diferente. Na rua que ele morava que era paralela à rua da escola havia o boteco do professor Chiquinho. Quando o Luan não estava na escola estudando ou jogando bola, passava algumas horas jogando pebolim ou bilhar com seus dois amigos, os irmãos Serginho e Gilberto que moravam colados ao boteco do professor.
Para pagar as fichas das partidas, eles arrumavam dinheiro indo catar coquinho no mato e vendiam no portão da escola ou juntavam ferro velho e vendiam por quilo. Às vezes jogavam fiado, mas o professor sempre cobrava até pagarem.
Certo dia, o professor sugestionou que se eles conseguissem uma boa quantia de giz branco para passar nos tacos de bilhar, ele liberaria a mesa grátis por uma semana. E ainda mais, na escola seria muito fácil eles conseguirem. Não deu outra, na manhã seguinte, os meninos estavam lá como quem não quer nada, aliás, estavam atrás de um montante de giz branco, com certeza.
Os bebedouros, antigamente, pareciam cochos com várias torneiras. O bebedouro ficava ao lado da secretaria. Ao passarem em frente à secretaria em direção do bebedouro notaram que em cima de uma mesa próxima à porta que estava aberta, havia dezenas de caixas de giz fechadas e lacradas.
De imediato, o mais sabidinho, Gilberto, disse: “Pega”. E o mais bobinho, Serginho, pegou duas caixas e colocou nos bolsos da jaqueta. Rapidamente levaram o produto do furto para o professor Chiquinho.
Qual foi o espanto dos três ao saberem que no dia seguinte bem cedo, o Sr. Hamilton, Diretor matutino já havia sido comunicado do fato e levado o mesmo à Dona Cadi, Diretora dos outros dois períodos.
A primeira pessoa que ela procurou foi a mim e disse que, os meninos, provisoriamente estariam suspensos e, infelizmente, as consequências seriam drásticas. Eu, por conseguinte, comuniquei o meu irmão e também meus pais. Aquela noite, provavelmente, foi a pior noite do Luan.
Mas, eis que na manhã seguinte, logo cedo, o meu querido irmão me aparece com esse poema:

Simples roubo

Sentia-se como impelido
por uma força imoral,
que o reduzia e o transformava
num homem medíocre e banal.

Sem ter ao menos vivido
uma parte de sua vida;
fazendo de um pequeno gesto
uma consequência sofrida,
surgida por entre lágrimas
que molharam suas faces.

Arrependido e magoado
porque tudo morre e também nasce,
a cicatriz ficará nele
mesmo que a tristeza passe.

Eu li e reli aqueles versos e percebi que foram feitos com muita emoção, foram escritos com o coração, então resolvi leva-lo para o Sr. Hamilton ler. E não é que deu certo. Algo muito forte naquelas linhas mexeu por dentro do Diretor e, antes mesmo de eu ir conversar com a Dona Cadi, ela já sabia da decisão do Sr. Hamilton e também já tinha lido o poema feito pelo Luan.
Quando cheguei à Diretoria para falar com Dona Cadi a encontrei com a folha nas mãos e com os olhos cheios de lágrimas. Ela me disse: “Pode falar para os meninos voltarem a jogar bola”.
Naquela tarde, Luan, Gilberto e Serginho retornaram para suas classes e no dia seguinte, o professor Chiquinho foi demitido.

                                                                                                          04/05/2015



Exercício: Narrar algo que aconteça no fundo do mar com movimento de água.


Uma luz no abismo

__ Mayday! Mayday! Mayday!
O pequeno submarino de três metros de diâmetro começou a cair e do observatório no fundo do navio-mãe os tripulantes viram a luz da sonda, diminuir de intensidade na imensidão de um abismo sem fim.
Ao leste da costa da Groelândia, o geólogo John Lindsay e seus dois assistentes, Michael Logan e Diego Benites, funcionários de uma empresa petrolífera canadense faziam suas pesquisas a setecentos metros abaixo da superfície marinha. Um serviço rotineiro em mapear e monitorar o solo oceânico, e através desse trabalho encontrar reservas de petróleo e gás natural para futuras explorações.
O submarino, com os seus tripulantes, estava posicionado numa plataforma rochosa reconhecida como segura. Dali, por um determinado tempo podia-se observar e ficar na escuta para se ter a certeza que não havia mamíferos nas redondezas, pois o funcionamento do sonar pode acarretar danos enormes em baleias e golfinhos. Estes animais, muitas das vezes, têm seus tímpanos perfurados e até por fugirem de seu habitat, encalham em outras praias e morrem.
Durante esse intervalo os três companheiros de trabalho, e amigos particulares, aproveitam para assistirem o balé impressionante de pequenos seres luminosos, transparentes, algumas espécies ainda nem conhecidas. Eles filmam tudo para também mostras a seus familiares.
Naquela profundidade o mar é frequentemente calmo. A pouca correnteza é quase imperceptível, mas de repente um turbilhão veio de encontro ao pequeno veículo e o arremessou à parede rochosa. Ao bater na rocha, o submarino voltou e despencou para as profundezas.
Ainda deu tempo de ver o enorme tubarão, tão grande como uma baleia da Groelândia com seus 14 a 18 metros. Eles perceberam que se tratava de uma espécie de tubarão por causa da cauda e nadadeiras dorsais típicas deste animal. Mas não haveria tempo para comunicarem o fato ao mundo porque o impacto fora tão grande que danificou a parte elétrica e instrumental do veículo. Eles estavam indo de encontro à morte.
Após alguns segundos de uma descida vertical, o submarino aportou em areias tranquilas que tinham um brilho inexplicável e davam certa luminosidade naquele lugar profundo. Havia afundado por mais dois quilômetros além da plataforma. O submarino fora construído para suportar apenas mil metros de profundidade. Logo o ar no compartimento estaria rarefeito e com a pressão externa morreriam em alguns minutos. Deram-se as mãos e rezaram como nunca o fizeram antes.
De repente, numa das escotilhas laterais, surgiu uma mão membranosa e muito clara. Logo em seguida um rosto muito semelhante ao homo sapiens, mas ossudo e também esbranquiçado com um par de olhos enormes e esverdeados.
O medo já não mais existia para John e seus assistentes, pois sabiam que de uma forma ou de outra a morte era iminente em poucos minutos. Os três olharam para a escotilha central e avistaram dezenas daqueles seres esbranquiçados, adultos e filhotes, nadando em alta velocidade e volteando o submarino. Tinham enormes nadadeiras caudais semelhantes as das baleias e longos braços.
Aquela massa juntou-se ao redor do submarino e numa ação conjunta levantaram o veículo do piso e o transportaram, numa subida crescente e diagonal, até à superfície. Os amigos perceberam que aquilo era um ato de solidariedade. As criaturas eram inteligentes, talvez, ou por que não, certamente, mais humanas do que os humanos.
John, Michael e Diego saíram pela escotilha principal, jogaram o barco inflável ao mar. Estavam muito distantes do local que ocorrera o acidente. Subiram no barco a tempo de ver o submarino afundando novamente.
Acionaram o sinalizador e ficaram aguardando o resgate enquanto as sereias retornavam para o seu habitat.
   

04/05/2015




Exercício: Escolher uma lembrança e transferir para o personagem.


A Prainha

Houve um tempo no qual um menino loirinho de cabelos esvoaçantes imaginava que um lugar como aquele nunca deixaria de existir. Um lugar em que as tardes de sábado passavam, mas ele continuava ali aguardando o outro sábado.
Nos dias de hoje se fala para uma criança de quatro anos: “Que menina linda!” E ela retruca: “Eu não sou menininha... Eu já sou uma mocinha.” E a mãe acha engraçada a forma como a filha fala. Também estamos vivendo a era Anitanaldiana, onde crianças com menos de sete anos balançam o bumbum no ritmo alucinado do funk, até um bom ritmo para se dançar, mas com letras apodrecidas construídas por mentes poluídas. E os pais vêm tudo com certa naturalidade que profetiza algo de muito ruim lá na frente.
Mas naquela época do menino loirinho, início da década de 60, época do rock roll, jovem guarda, as músicas eram mais suaves e as letras menos infectantes. E nessa época um menino loirinho com a idade de sete anos ainda era considerado uma criança. Criança que gostava de jogar bola no meio da rua, empinar pipa, rodar pião, e também ir às tardes de sábado naquele lindo lugar.
Da sua casa até o lugar mágico era pouco mais de mil metros de caminhada. Pouquíssimas casas ainda existiam por lá e todos se conheciam. Normalmente ele ia com a mãe, a irmã solteira e o pai, quando não estava trabalhando. Às vezes, o irmão adolescente também acompanhava a família, mas somente quando os compromissos da sua idade não atrapalhavam. Mas Pafúncio, o fiel amigo do menino loirinho, esse sempre ia ao passeio, não faltava um sequer.
Pafúncio era um cachorro da raça teckel, pouco maior que o tamanho padrão da cor marrom e muito esperto. O menino havia ganhado o cachorro recém-nascido com a idade de dois anos. Então nessa época, Pafúncio contava com cinco anos e poderia ser chamado, por que não, de um menino marronzinho. E os dois, juntos, se divertiam muito.
Chegando-se ao belo lugar, o menino e Pafúncio caminhavam deixando marcas na areia branquinha até a beira d’água.  Ali, as mansas marolas molhavam os pés do menino e as patinhas do animal. Então, o menino pegava um pedaço de pau e o arremessava a uns cinco metros de distância. Pafúncio se jogava na água e logo em seguida trazia a madeira entre os dentes e depositava aos pés do menino.
Em alguns desses passeios, a família catava grandes mariscos incrustados nas pedras que a mãe, no dia seguinte, preparava uma gostosa panelada de arroz branco.
E assim eram alguns sábados do menino loirinho e sua família.
Uma parte do lugar ainda existe, mas infelizmente, o branco da areia ficou acinzentado e o pedaço de pau se transformou em ferro. O porto do lado de lá também tomou conta do lado de cá.

   
22/04/2015







Exercício: Escrever três páginas imaginando diálogos entre as nuvens.


O pranto das nuvens

Eu e minha netinha estávamos voltando da escola dela quando próximo ao portão da casa, ela olhou para cima e disse:
__ Olha vovô, que linda!
__ O quê, querida? __ Perguntei e também olhei na mesma direção que ela.
__ O coração. __ Disse ela com um sorriso nos olhos.
__ Que coração, Bebella?
__ A nuvem-coração, vovô. __ Ela apontou para o céu.
__ Ah! A nuvem-coração... Como eu não haveria de ver. Vou tirar uma foto.
__ Tira, vovô... Tira, vovô... __ Ela toda alegre. __ E manda pelo WhatsApp.
__ Tá bom! Eu falo para a tia Renata enviar pelo WhatsApp. __ Disse o avô fazendo uma cara de que não tinha paciência com essa modernidade.
__ Você sabia, Bebella, que há muito tempo as nuvens falavam?
__ Verdade, vovô? E elas falavam o quê? __ Perguntou a menina meio desconfiada.
__ Falavam muitas coisas. Eu vou te contar uma história sobre as nuvens.
Entraram na casa e de imediato a menina sentou-se no sofá e pediu para o avô contar a história.
‘Há muito tempo os homens viviam brigando entre si. Cada um se importava consigo mesmo sem querer saber do outro. Lá em cima, no céu, as nuvens assistiam a tudo e ficavam muito triste. Por isso elas choravam e caia uma chuvinha aqui, outra ali.
Existiam vários tipos de nuvens e dentre elas, as nuvens vigias. Num certo dia, duas nuvens vigias conversavam:
__ A nuvem-Rainha está muito chateada com o que está acontecendo na Terra. __ Disse a nuvem Zela.
__ Acho que logo, logo, ele vai dar alguma ordem para as grandes nuvens cinzentas. __ Falou a nuvem Zinha.
__ Você vê como os homens lá embaixo vivem em guerra. __ Nuvem Zinha falou com os olhos entristecidos.
__ Pois é, a maioria deles são egoístas. Nuvem Zela, preocupada. __ Só olham para o seu próprio umbigo.
__ Vamos voando contar todas as novidades para nuvem Tinho, a porta-voz da nuvem-Rainha.
Nuvem Tinho de imediato foi contar à nuvem-Rainha.
__ Então, Vossa Majestade, a coisa lá embaixo está feia.
__ Conte-me tudo nuvem Tinho. Não quero que fique um arzinho de fora nessa conversa.
__ Os homens estão se matando em forma de guerras e matando os animais sem distinção do qual é necessário ou não.
__ Isso é muito ruim. __ Disse a nuvem-Rainha, indignada. Ela tinha um nome muito bonito. Ela se chamava nuvem Tania. __ Precisaremos tomar providência e fazermos algo descomunal para acabarmos com isso.
Enquanto isso as nuvens-vigias vigiavam é lógico.
__ Você percebeu que entre todos os homens maus existe um que respeita os ensinamentos do grande Deus? __ Perguntou nuvem Zela.
__ Sim. __ Disse nuvem Zinha. __ Ele e toda sua família.
__ Acredito que exista algo extraordinário para esse bom homem e os seus. __ Observou nuvem Zela.
E lá foram elas novamente voando avisar a nuvem Tinho que por sua vez foi até a nuvem-Rainha contar a novidade.
__ Senhora, entre toda a maldade dos homens foi encontrado a bondade de um homem e sua família. __ Disse nuvem Tinho, reverenciando nuvem Tania. __ O que fazer?
__ Vamos enviar uma nuvem em forma de anjo para comunicar a esse bom homem o que ele tem que fazer junto a sua família.
Então foi enviada à Terra a nuvem mais rápida que havia no céu. A nuvem Daval. Ela foi em forma de anjo e encontrando o bom homem disse tudo que ele deveria fazer antes do grande acontecimento.
Passaram-se alguns meses e num certo dia, quando os preparativos nas terras do bom homem haviam encerrados, a nuvem deu uma ordem à nuvem Tinho:
__ Avise a todas as nuvens cinzentas e também as menos cinzentas para que fiquem mais tristes e caiam em prantos.
Aconteceu que o choro foi tão grande que durou quarenta dias e quarenta noites e quando o chororô terminou, somente o bom homem, sua família e todos os animais que ele colocou na grande arca estavam vivos para um novo recomeço.

                                                                                                25/03/2015