segunda-feira, 29 de junho de 2015




Exercício: Escrever um texto com tema livre com as formas de se comunicar do séc.  
                 18 ou 19 que se passa no séc. 21 usando imagens e ideias.

A felicidade é eterna

O distinto cavalheiro tinha um olhar melancólico como o entardecer desbotado de um dia chuvoso de outono. Suas faces eram de uma brancura láctea dos habitantes de países frios, mas sempre que encontrava aquela que o acaso lhe havia reservado, as maçãs do seu rosto ficavam róseas feito um por de sol descortinado.
Sentado no banco de uma praça verdejante, o jovem mancebo, ansioso, insistentemente dirigia o seu olhar para o celular tão impassível aos seus anseios. Mensagens que iam ficavam ao vento daquela manhã dourada e fervilhante.    
A praça onde aconteciam os encontros vertiginosos era repleta por arvoredos de um verde irrequieto e suspirante pelas brumas matinais. Em seu seio havia um enorme lago de águas turvas e sonolentas, cercado por um guarda corpo de madeira. Belas bromélias por toda a sua extensão davam proteção ao bando de patos, gansos, marrecos e um magnífico casal de cisnes que iam e vinham no remanso a beliscar migalhas arremessadas por pequeninos imbuídos nessa aventura. Próximo ao banco, dezenas de pombos, alvoroçados e famintos, comiam tudo que fosse comestível e aparecesse pela frente.  
Do lado direito da praça fica a prefeitura onde o ambicioso rapaz trabalha como escriturário, função que lhe fornece a remuneração suficiente para pagar o derradeiro ciclo da Faculdade de Economia. Ele sonha em sentar-se à mesa mais cobiçada do prédio e quiçá um dia chegar a voos mais altos.
A igreja matriz, de esplendorosa beleza barroca, fica ao lado contrário. Com suas três torres frontais todas decoradas em bronze. A sua torre central mostra o magnífico sino feito em cobre com inscrições e desenhos conditos. Foi ali, em frente ao retábulo todo em mármore detalhado em ouro mostrando a imagem de Jesus crucificado, que o moço com o peito rubro de paixão a palpitar prometeu há dois anos para a sua amada desposá-la nesse mesmo santuário. 
O sol se pôs em zênite e teve início a doze badaladas no enorme cantante da matriz. Infinitos sessenta minutos se passaram e nada de aparecer a donzela apaixonada. Agora o moço tinha o olhar fixo no enorme prédio de escritórios à sua frente. Vinte andares de ferros e cimentos espelhados onde o sol faísca nas janelas e escalda as pedras das sacadas.
É num desses escritórios, na Empresa de Advogados S.A., que estagiava a encantadora e doce dulcinéia. Dona de um corpo venusiano, delicado, de membros longilíneos e de uma brancura tenra. Os cabelos lisos e trigueiros por sobre os ombros realçava as faces rosadas de um rosto arredondado. O pequeno nariz harmonizando-se com a boca escarlate e os olhos cândidos completa esse ser angelical.
Ao sair da sala, ela transportou o seu olhar para a caixa de mensagens do celular que havia ficado no silencioso durante as duas horas de reunião. Mensagens que ficaram ao vento naquela manhã celeste. Mensagens do seu amado mostrando que, mesmo atrasada, lhe davam a certeza da espera obstinada no banco da praça. Uma das mensagens que ela mais gostava de ler “A felicidade é eterna” estava lá. Ela saiu do elevador e em quase júbilo correu na direção da praça.
O moço enviou mais uma mensagem e decidiu ir até a cafeteria que fica embaixo do prédio de escritórios tomar uma chávena de macchiato. O trânsito por aquelas horas se tornava muito intenso, carros e motos pareciam gazelas em fugas das garras da família de leões.
Ao abrir o sinaleiro, uma brecada brusca por um instante insipiente e o corpo é jogado por sobre a negritude do asfalto abrasador. O jovem mancebo com a amada em seus braços ao cofiar o cabelo trigueiro ele sente uma quentura molhada nas mãos. O cabelo se transforma num avermelhado de um bronze baço e a languidez dos olhos se perde na escuridão de um silêncio recolhido. Antes do suspiro derradeiro, a donzela balbucia as últimas palavras para seu amado que permanece ao seu lado até o carro mortalha a transferir para o IML.
Havia passado duas semanas depois do trágico. Ajoelhado por sobre a relva macia do cemitério, o jovem orava. Na campa, inscrito em letras chorosas as últimas palavras que sua amada balbuciou: “A felicidade é eterna”.


       10/06/2015

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