Exercício:
Escrever um texto com tema livre com as formas de se comunicar do séc.
18 ou 19 que se passa no séc.
21 usando imagens e ideias.
A felicidade é eterna
O distinto cavalheiro tinha um olhar melancólico
como o entardecer desbotado de um dia chuvoso de outono. Suas faces eram de uma
brancura láctea dos habitantes de países frios, mas sempre que encontrava
aquela que o acaso lhe havia reservado, as maçãs do seu rosto ficavam róseas
feito um por de sol descortinado.
Sentado no banco de uma praça verdejante, o jovem
mancebo, ansioso, insistentemente dirigia o seu olhar para o celular tão
impassível aos seus anseios. Mensagens que iam ficavam ao vento daquela manhã
dourada e fervilhante.
A praça onde aconteciam os encontros vertiginosos
era repleta por arvoredos de um verde irrequieto e suspirante pelas brumas
matinais. Em seu seio havia um enorme lago de águas turvas e sonolentas,
cercado por um guarda corpo de madeira. Belas bromélias por toda a sua extensão
davam proteção ao bando de patos, gansos, marrecos e um magnífico casal de
cisnes que iam e vinham no remanso a beliscar migalhas arremessadas por
pequeninos imbuídos nessa aventura. Próximo ao banco, dezenas de pombos,
alvoroçados e famintos, comiam tudo que fosse comestível e aparecesse pela
frente.
Do lado direito da praça fica a prefeitura onde o
ambicioso rapaz trabalha como escriturário, função que lhe fornece a
remuneração suficiente para pagar o derradeiro ciclo da Faculdade de Economia.
Ele sonha em sentar-se à mesa mais cobiçada do prédio e quiçá um dia chegar a
voos mais altos.
A igreja matriz, de esplendorosa beleza barroca,
fica ao lado contrário. Com suas três torres frontais todas decoradas em bronze.
A sua torre central mostra o magnífico sino feito em cobre com inscrições e
desenhos conditos. Foi ali, em frente ao retábulo todo em mármore detalhado em
ouro mostrando a imagem de Jesus crucificado, que o moço com o peito rubro de
paixão a palpitar prometeu há dois anos para a sua amada desposá-la nesse mesmo
santuário.
O sol se pôs em zênite e teve início a doze
badaladas no enorme cantante da matriz. Infinitos sessenta minutos se passaram
e nada de aparecer a donzela apaixonada. Agora o moço tinha o olhar fixo no
enorme prédio de escritórios à sua frente. Vinte andares de ferros e cimentos
espelhados onde o sol faísca nas janelas e escalda as pedras das sacadas.
É num desses escritórios, na Empresa de Advogados
S.A., que estagiava a encantadora e doce dulcinéia. Dona de um corpo venusiano,
delicado, de membros longilíneos e de uma brancura tenra. Os cabelos lisos e
trigueiros por sobre os ombros realçava as faces rosadas de um rosto
arredondado. O pequeno nariz harmonizando-se com a boca escarlate e os olhos
cândidos completa esse ser angelical.
Ao sair da sala, ela transportou o seu olhar para a
caixa de mensagens do celular que havia ficado no silencioso durante as duas
horas de reunião. Mensagens que ficaram ao vento naquela manhã celeste.
Mensagens do seu amado mostrando que, mesmo atrasada, lhe davam a certeza da
espera obstinada no banco da praça. Uma das mensagens que ela mais gostava de
ler “A felicidade é eterna” estava lá. Ela saiu do elevador e em quase júbilo
correu na direção da praça.
O moço enviou mais uma mensagem e decidiu ir até a
cafeteria que fica embaixo do prédio de escritórios tomar uma chávena de
macchiato. O trânsito por aquelas horas se tornava muito intenso, carros e
motos pareciam gazelas em fugas das garras da família de leões.
Ao abrir o sinaleiro, uma brecada brusca por um
instante insipiente e o corpo é jogado por sobre a negritude do asfalto
abrasador. O jovem mancebo com a amada em seus braços ao cofiar o cabelo
trigueiro ele sente uma quentura molhada nas mãos. O cabelo se transforma num
avermelhado de um bronze baço e a languidez dos olhos se perde na escuridão de
um silêncio recolhido. Antes do suspiro derradeiro, a donzela balbucia as
últimas palavras para seu amado que permanece ao seu lado até o carro mortalha
a transferir para o IML.
Havia passado duas semanas depois do trágico.
Ajoelhado por sobre a relva macia do cemitério, o jovem orava. Na campa,
inscrito em letras chorosas as últimas palavras que sua amada balbuciou: “A
felicidade é eterna”.
10/06/2015

Nenhum comentário:
Postar um comentário