Exercício: Narrar algo que aconteceu em algum lugar da escola que estudou
no ponto de vista de alguém da escola.
Um simples roubo
Durante trinta anos eu fui servente daquela escola.
Presenciei muitos momentos alegres e também momentos tristes. Assisti tantas e
tantas crianças e tantos e tantos adolescentes se formarem. Todos os meus
filhos estudaram até o último ano do ensino médio. Eu morava na mesma rua da
escola com meu marido e meus seis filhos.
Aquela escola continua lá até hoje. Ela é enorme com
dezesseis classes e cada uma com capacidade para trinta e cinco alunos. Eu
lembro que naquela época, no seu pátio externo havia uma quadra poliesportiva e
um campo de futebol de dimensões menores que o padrão.
Os alunos que lá estudavam nos três períodos tinham
total liberdade de praticarem esporte durante o dia, lógico que com a
apresentação da carteirinha do colégio. Luan, o meu irmão caçula, estudou nessa
escola até o segundo ano do ensino médio e ele, por ser meu irmão, tinha mais
liberdade que os demais alunos.
Naquele tempo, as crianças e os adolescentes nem
sonhavam que um dia existiria o videogame (ainda bem) e as diversões eram jogar
bola no meio da rua, empinar papagaio, jogar pião e os mais velhos também
jogavam o tal de pebolim, o futebol virtual de agora.
Sempre tinha uma mesa de pebolim em algum boteco, mas
ao seu lado também havia uma mesa de bilhar. O interessante que era proibido
por lei menor jogar bilhar, mas o pebolim que a mesa ficava ao lado era
permitido. Os adolescentes menores de idade sempre davam um jeitinho para jogar
umas partidinhas de bilhar.
O meu irmão Luan não era diferente. Na rua que ele
morava que era paralela à rua da escola havia o boteco do professor Chiquinho.
Quando o Luan não estava na escola estudando ou jogando bola, passava algumas
horas jogando pebolim ou bilhar com seus dois amigos, os irmãos Serginho e
Gilberto que moravam colados ao boteco do professor.
Para pagar as fichas das partidas, eles arrumavam
dinheiro indo catar coquinho no mato e vendiam no portão da escola ou juntavam
ferro velho e vendiam por quilo. Às vezes jogavam fiado, mas o professor sempre
cobrava até pagarem.
Certo dia, o professor sugestionou que se eles conseguissem
uma boa quantia de giz branco para passar nos tacos de bilhar, ele liberaria a
mesa grátis por uma semana. E ainda mais, na escola seria muito fácil eles
conseguirem. Não deu outra, na manhã seguinte, os meninos estavam lá como quem
não quer nada, aliás, estavam atrás de um montante de giz branco, com certeza.
Os bebedouros, antigamente, pareciam cochos com
várias torneiras. O bebedouro ficava ao lado da secretaria. Ao passarem em
frente à secretaria em direção do bebedouro notaram que em cima de uma mesa
próxima à porta que estava aberta, havia dezenas de caixas de giz fechadas e
lacradas.
De imediato, o mais sabidinho, Gilberto, disse:
“Pega”. E o mais bobinho, Serginho, pegou duas caixas e colocou nos bolsos da
jaqueta. Rapidamente levaram o produto do furto para o professor Chiquinho.
Qual foi o espanto dos três ao saberem que no dia seguinte
bem cedo, o Sr. Hamilton, Diretor matutino já havia sido comunicado do fato e
levado o mesmo à Dona Cadi, Diretora dos outros dois períodos.
A primeira pessoa que ela procurou foi a mim e disse
que, os meninos, provisoriamente estariam suspensos e, infelizmente, as
consequências seriam drásticas. Eu, por conseguinte, comuniquei o meu irmão e
também meus pais. Aquela noite, provavelmente, foi a pior noite do Luan.
Mas, eis que na manhã seguinte, logo cedo, o meu
querido irmão me aparece com esse poema:
Simples roubo
Sentia-se como impelido
por uma força imoral,
que o reduzia e o transformava
num homem medíocre e banal.
Sem ter ao menos vivido
uma parte de sua vida;
fazendo de um pequeno gesto
uma consequência sofrida,
surgida por entre lágrimas
que molharam suas faces.
Arrependido e magoado
porque tudo morre e também nasce,
a cicatriz ficará nele
mesmo que a tristeza passe.
Eu li e reli aqueles versos e percebi que foram
feitos com muita emoção, foram escritos com o coração, então resolvi leva-lo para
o Sr. Hamilton ler. E não é que deu certo. Algo muito forte naquelas linhas
mexeu por dentro do Diretor e, antes mesmo de eu ir conversar com a Dona Cadi,
ela já sabia da decisão do Sr. Hamilton e também já tinha lido o poema feito
pelo Luan.
Quando cheguei à Diretoria para falar com Dona Cadi a
encontrei com a folha nas mãos e com os olhos cheios de lágrimas. Ela me disse:
“Pode falar para os meninos voltarem a jogar bola”.
Naquela tarde, Luan, Gilberto e Serginho retornaram
para suas classes e no dia seguinte, o professor Chiquinho foi demitido.

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