Exercício: Escolher uma lembrança e
transferir para o personagem.
A Prainha
Houve um tempo no qual um menino loirinho de
cabelos esvoaçantes imaginava que um lugar como aquele nunca deixaria de
existir. Um lugar em que as tardes de sábado passavam, mas ele continuava ali aguardando
o outro sábado.
Nos dias de hoje se fala para uma criança de quatro
anos: “Que menina linda!” E ela retruca: “Eu não sou menininha... Eu já sou uma
mocinha.” E a mãe acha engraçada a forma como a filha fala. Também estamos
vivendo a era Anitanaldiana, onde crianças com menos de sete anos balançam o
bumbum no ritmo alucinado do funk, até um bom ritmo para se dançar, mas com
letras apodrecidas construídas por mentes poluídas. E os pais vêm tudo com certa
naturalidade que profetiza algo de muito ruim lá na frente.
Mas naquela época do menino loirinho, início da
década de 60, época do rock roll, jovem guarda, as músicas eram mais suaves e
as letras menos infectantes. E nessa época um menino loirinho com a idade de sete
anos ainda era considerado uma criança. Criança que gostava de jogar bola no
meio da rua, empinar pipa, rodar pião, e também ir às tardes de sábado naquele
lindo lugar.
Da sua casa até o lugar mágico era pouco mais de
mil metros de caminhada. Pouquíssimas casas ainda existiam por lá e todos se
conheciam. Normalmente ele ia com a mãe, a irmã solteira e o pai, quando não
estava trabalhando. Às vezes, o irmão adolescente também acompanhava a família,
mas somente quando os compromissos da sua idade não atrapalhavam. Mas Pafúncio,
o fiel amigo do menino loirinho, esse sempre ia ao passeio, não faltava um
sequer.
Pafúncio era um cachorro da raça teckel, pouco
maior que o tamanho padrão da cor marrom e muito esperto. O menino havia
ganhado o cachorro recém-nascido com a idade de dois anos. Então nessa época,
Pafúncio contava com cinco anos e poderia ser chamado, por que não, de um
menino marronzinho. E os dois, juntos, se divertiam muito.
Chegando-se ao belo lugar, o menino e Pafúncio caminhavam
deixando marcas na areia branquinha até a beira d’água. Ali, as mansas marolas molhavam os pés do
menino e as patinhas do animal. Então, o menino pegava um pedaço de pau e o
arremessava a uns cinco metros de distância. Pafúncio se jogava na água e logo
em seguida trazia a madeira entre os dentes e depositava aos pés do menino.
Em alguns desses passeios, a família catava grandes
mariscos incrustados nas pedras que a mãe, no dia seguinte, preparava uma
gostosa panelada de arroz branco.
E assim eram alguns sábados do menino loirinho e
sua família.
Uma parte do lugar ainda existe, mas infelizmente,
o branco da areia ficou acinzentado e o pedaço de pau se transformou em ferro.
O porto do lado de lá também tomou conta do lado de cá.
22/04/2015

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