segunda-feira, 29 de junho de 2015





Exercício: Escolher uma lembrança e transferir para o personagem.


A Prainha

Houve um tempo no qual um menino loirinho de cabelos esvoaçantes imaginava que um lugar como aquele nunca deixaria de existir. Um lugar em que as tardes de sábado passavam, mas ele continuava ali aguardando o outro sábado.
Nos dias de hoje se fala para uma criança de quatro anos: “Que menina linda!” E ela retruca: “Eu não sou menininha... Eu já sou uma mocinha.” E a mãe acha engraçada a forma como a filha fala. Também estamos vivendo a era Anitanaldiana, onde crianças com menos de sete anos balançam o bumbum no ritmo alucinado do funk, até um bom ritmo para se dançar, mas com letras apodrecidas construídas por mentes poluídas. E os pais vêm tudo com certa naturalidade que profetiza algo de muito ruim lá na frente.
Mas naquela época do menino loirinho, início da década de 60, época do rock roll, jovem guarda, as músicas eram mais suaves e as letras menos infectantes. E nessa época um menino loirinho com a idade de sete anos ainda era considerado uma criança. Criança que gostava de jogar bola no meio da rua, empinar pipa, rodar pião, e também ir às tardes de sábado naquele lindo lugar.
Da sua casa até o lugar mágico era pouco mais de mil metros de caminhada. Pouquíssimas casas ainda existiam por lá e todos se conheciam. Normalmente ele ia com a mãe, a irmã solteira e o pai, quando não estava trabalhando. Às vezes, o irmão adolescente também acompanhava a família, mas somente quando os compromissos da sua idade não atrapalhavam. Mas Pafúncio, o fiel amigo do menino loirinho, esse sempre ia ao passeio, não faltava um sequer.
Pafúncio era um cachorro da raça teckel, pouco maior que o tamanho padrão da cor marrom e muito esperto. O menino havia ganhado o cachorro recém-nascido com a idade de dois anos. Então nessa época, Pafúncio contava com cinco anos e poderia ser chamado, por que não, de um menino marronzinho. E os dois, juntos, se divertiam muito.
Chegando-se ao belo lugar, o menino e Pafúncio caminhavam deixando marcas na areia branquinha até a beira d’água.  Ali, as mansas marolas molhavam os pés do menino e as patinhas do animal. Então, o menino pegava um pedaço de pau e o arremessava a uns cinco metros de distância. Pafúncio se jogava na água e logo em seguida trazia a madeira entre os dentes e depositava aos pés do menino.
Em alguns desses passeios, a família catava grandes mariscos incrustados nas pedras que a mãe, no dia seguinte, preparava uma gostosa panelada de arroz branco.
E assim eram alguns sábados do menino loirinho e sua família.
Uma parte do lugar ainda existe, mas infelizmente, o branco da areia ficou acinzentado e o pedaço de pau se transformou em ferro. O porto do lado de lá também tomou conta do lado de cá.

   
22/04/2015


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